Daniel Goleman nos explica em seu livro “Inteligência Social” um detalhe que não nos passa despercebido. Assim como muitos outros psicólogos e antropólogos também nos explicaram, o cérebro do ser humano é um órgão social. As relações com nossos semelhantes são essenciais para sobreviver. No entanto, Goleman aponta mais um aspecto: muitas vezes também somos “dolorosamente sociais”.
Você conhece o meu nome, não a minha história. Você ouviu o que eu fiz, mas não sabe pelo que eu passei…
Essas alterações nem sempre trazem um benefício, um reforço positivo que devemos aprender a integrar. Hoje em dia a nossa maior ameaça predatória é, surpreendentemente, a nossa própria espécie. Uma ameaça que poderíamos comparar com um combustível que arde especialmente nesse mundo emocional; um lugar que muitas vezes é violado, criticado ou posto à prova através de um rótulo que nos objetifica.
Cada um de nós é como navios desbravando oceanos mais ou menos tranquilos ou mais ou menos turbulentos. No nosso interior, e pendentes na âncora desse belo navio, as nossas batalhas pessoais estão penduradas e irão ser travadas. Aquelas com as quais tentamos avançar apesar de tudo, aquelas que às vezes nos deixam encalhados, sem que o resto do mundo saiba muito bem o que está acontecendo conosco, o que nos faz estar parados ou o que nos machuca.
Propomos que você reflita sobre isso:
A história que ninguém vê, o livro que você leva dentro de si...
Vamos imaginar por um momento uma pessoa fictícia. Ela se chama Maria, tem 57 anos e faz alguns meses que começou a trabalhar em uma loja. Seus colegas de loja a rotulam como tímida, reservada, chata, alguém que evita olhar nos olhos quando começam uma conversa com ela. São muito poucos os que conhecem a história pessoal de Maria: ela sofreu maus-tratos durante mais de 20 anos. Agora, depois de se separar recentemente de seu marido, ela voltou, depois de muito tempo, ao mercado de trabalho.
“Minha história não é doce, nem agradável como as histórias inventadas. A minha tem sabor de bobagem e confusão.” -Herman Hesse-
Cair no julgamento rápido e no rótulo é fácil. Maria tem plena consciência de como os outros a veem, mas sabe que precisa de tempo, e se tem algo que ela não quer, é que os outros sintam pena dela. Ela não é obrigada a contar sua história, não tem por que fazer isso se não quiser, a única coisa que ela precisa é que as pessoas ao seu redor mudem o foco de atenção.
Em vez de centrar nosso interesse apenas nas carências dos outros, de proceder a uma análise rápida resultando no estereótipo clássico para delimitar o que é diferente de nós mesmos, temos que ser capazes de desligar o julgamento para ativar a empatia. Apenas esta dimensão é a que nos torna “pessoas” e não meros seres humanos vivendo juntos em um mesmo cenário.
Colocar um rótulo é, acima de tudo, renunciar à nossa capacidade de percepção ou à oportunidade de descobrir o que há além de uma aparência, de um rosto, de um nome. No entanto, são necessárias três coisas para chegar a esta delicada camada da interação humana: um interesse sincero, proximidade emocional e tempo de qualidade. Dimensões que atualmente parecem ter caducado em muitas almas.
Temos consciência de que muitas das abordagens terapêuticas que são usadas atualmente centram a sua importância nas oportunidades presentes, nesse “aqui e agora” em que o passado não tem por que nos determinar. No entanto, as pessoas, quer queiram quer não, são feitas de histórias, de fragmentos existenciais, de capítulos que dão forma a uma trama passada da qual somos o resultado.
Todos enfrentamos batalhas muito íntimas, às vezes descarnadas. Somos muito mais do que diz a nossa carteira de identidade, o nosso currículo ou o histórico acadêmico. Somos feitos de matéria estelar, como disse Carl Sagan uma vez, estamos destinados a brilhar, mas às vezes optamos por apagar a luz uns dos outros. Vamos evitar fazer isso e investir mais no respeito, na sensibilidade e no altruísmo.






